quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PROTOCOLOS EXISTENCIAIS Nº 28

SANTÍSSIMA TRINDADE NO SISTEMA BINÁRIO

Quando o primeiro, insistentemente, justifica pra você os atos do segundo, você não é o terceiro: você está fora do jogo!  

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ME DÁ UM TECO?!

Alguém já disse que a filosofia e a literatura são as piores coisas para a poesia. Para alguém que, como eu, acredita que poesia não é literatura, muito menos filosofia, concorda plenamente com isso, embora nem todos tenham essa concepção. No entanto, penso aqui: o que é pior para a literatura, para a filosofia e para a poesia?

Questionando-me sobre os três casos, acabo incluindo mais um item. A História. Todo aquele que tem um interesse mais sério em História, acaba entrando em confronto com o ensino oficial da mesma. Não apenas por apresentar a versão dos protagonistas vencedores, mas, principalmente, por nos impingir fatos isolados. Nada pior para a História e seu entendimento que o retalhamento em pequenos pedaços, como se não houvesse qualquer conexão entre eles.

A História, sempre a História, vai me dando certa luz sobre a eterna sombra que se abate sobre a Poesia, a Literatura e a Filosofia. Em um primeiro momento identifico a falta do conhecimento histórico, a falta de leitura ou leitura superficial, seguida pelo entendimento risível, resultando, por fim, na cultura de retalhamento das obras.

A facilidade do mundo virtual expandiu de forma quase doentia essa superficialidade. Tornamo-nos clientes assíduos das seletas filosóficas, dos açougues poéticos e dos armarinhos de literatura. Como estripadores vamos desconectando órgãos, ossos e vísceras de um conjunto, denominado corpo. Tornamos inútil cada pedaço, cada parte sem sua função no todo. Matamos o todo.

A vaidade vai nos tornando grandes citadores de nomes, que mal conhecemos, e frases fora de seu contexto original. Somos todos a aparência do conhecimento. Sedutores do conhecimento rasteiro. Glorificação da ignorância mascarada. Portadores da preguiça fantasiada.

Sabemos que essa vaidade não resiste a duas perguntas, ou mesmo uma. Sabemos, mas quem se importa? Apenas querem seu pedaço.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CONSIDERAÇÕES MISERÁVEIS 27

Por mais que eu proclame minha indecência, sempre serei réu da minha inocência.

PROTOCOLOS EXISTENCIAIS Nº 26

Chega! Basta de expor a nudez da minha indignação. Não quero mais que as vísceras da minha felicidade sejam revolvidas em açougues públicos. Que finde a necropsia da minha alma. Não mais exumarão o cadáver dos meus fracassos.

Eu sou o fato. Regalem-se com os restos.

Não mais me oferecerei em holocausto para famélicos da sordidez. Não mais norte. Não mais mote. Basta de penhor genético. Desassociar-me dos eventos. Tempo e espaço. Manter o caos recalcitrante cagando para as normas mesquinhas .

Eu sou a foto. Regalem-se com os rostos.

Chega! Basta de fartura. Basta de cultura. Basta de ruptura. Quero apenas a rua entre nuvens e asfalto. Quero a rua sem séquitos de sexos embotados na minha poesia. Não mais quero suas fantasias.

Eu sou o farto. Regalem-se com os ritos.

Chega! Basta de hipocrisia saudável. Não quero mais a salutar felicidade de mãos que nunca se apertam. Retiro um a um os parasitas da minha franqueza: franquia de exultação. Não mais assinatura em contratos invisíveis.


Eu sou o reles. Regalem-se com os fardos. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CONSIDERAÇÕES MISERÁVEIS 26

CRISE DE IDENTIDADE:

Ser selfie de ficção ou de celebridade?

RECIFE 1978 - Segunda parte

Tereza morava com a família em um quase casebre enfiado no meio do mato, na periferia da cidade de Olinda. Fui ali uma ou duas vezes. Depois que chegamos a Recife, Tereza praticamente não saía de nosso apartamento.

Um dia ela começa a nos falar sobre uma tal de Árvore de Jurema e ficou insistindo para nos levar até lá. Onde a memória me permite distinguir, ficava no caminho do município de Paulista. Resolvemos ir. Eu, meu irmão, Rogério, Nelson e Mário.

Atravessamos uma mata e chegamos a um descampado com um córrego de águas cristalinas e seixos lindíssimos. Cruzamos o córrego. Tereza disse que, antes da Árvore de Jurema, nos levaria para conhecer o padre Cícero. Olhamo-nos, já estranhando a situação.

Padre Cícero era uma árvore frondosa, muito larga. Haviam lascado uma grande parte dela e pintado a figura do líder religioso do nordeste, com o tamanho aproximado de uma criança de 10 anos. A parte esquisita da história ficava por conta das inumeráveis perfurações à bala na cabeça, mãos e coração da pintura. Eram tantos tiros que essas partes do corpo haviam desaparecido. Tereza nos garantiu que durante a noite podia-se ouvir o barulho dos disparos, mas ninguém sabia quem era o responsável.

Seguimos adiante, até onde a mata se fechava completamente. Não havia qualquer sinal de trilha, nada que indicasse que pessoas penetrassem naquela muralha. Adentramos naquele emaranhado de árvores, mato, galhos e cipós, liderados pela Tereza. Finalmente chegamos à Árvore de Jurema.

Era um descampado, em forma de círculo, com uns 20 metros de diâmetro, no meio da mata. O entorno era mata fechada, sem qualquer sinal de que algum humano tivesse chegado ali. Ao centro, a Árvore de Jurema. Algo parecido com o cacaueiro. Sem um tronco aparente e os galhos brotando em diversos pontos do círculo. O chão desse círculo, sem qualquer outra planta, estava totalmente coberto de tocos de velas pretas e vermelhas. Não era possível ver o chão sob aquela espécie de asfalto rubro negro. Tereza também nos garantiu que ninguém sabia nada sobre os possíveis frequentadores daquele local, nem como sabia da sua existência.

Por mais cético que possamos ser não há como não sentir um frio percorrendo a espinha. Em silêncio saímos rapidamente do local.

Na volta resolvemos parar no córrego de águas límpidas e nos agachamos para pegar alguns seixos. Por alguma razão olhamos para trás, de onde tínhamos vindo. Ali, uns 10 metros da gente, um sujeito enorme, que lembrava muito o cantor e compositor Dominguinhos, com uma espingarda, ou rifle, apontando pra nossas costas. Não disse uma palavra.

Levantamo-nos muito lentamente e lentamente fomos nos afastando. Ele imóvel, apontando a arma em nossa direção. Assim, de forma muito lenta saímos do seu campo de visão e, claro, do alcance de um possível tiro.

Nunca comentamos, entre nós, sobre essa experiência. Acho que todos vivenciaram algo parecido com o que eu vivenciei: a possibilidade de uma morte onde ninguém jamais saberia que estávamos mortos.

Nunca indaguei a Tereza pra entender o que ela representava naquilo tudo. Quem era aquele homem armado, tão próximo da gente e não percebemos sua presença?


Estando sozinho o efeito da maconha até poderia justificar, mas em grupo, só alucinação coletiva.

RECIFE 1978 - Primeira parte

Em 1978 decidimos ir embora pra Recife. Era um bando formado pelo meu irmão Carlos, meus primos Nelson e Rogério, o Mário e eu. Meu primo Sidnei já estava morando lá.

Ficamos morando no centro de Recife, em um apartamento na esquina da Av. Boa Vista e a Rua do Hospício. Cenário que ressoava os passos soturnos do poeta Augusto dos Anjos.

Como chegamos com aquele aspecto ripongo, armados de violões e outros instrumentos musicais, rapidamente o apartamento transformou-se em ponto de encontro dos malucos de Recife. Músicos, junkies, hippies, gays e lésbicas abarrotavam o apartamento de três cômodos.

Lembro-me com muito carinho da Marta, garota lésbica, que largou a família para morar com a gente e de Tereza que, em início de gravidez, tornou-se minha companheira.

Não me recordo de onde foi proveniente e nem com qual intenção, alguém levou um saco, sim, um saco de uns comprimidinhos, de cor entre azul e violeta, que eram usados como “sossega leão” nos internos agressivos do Hospital Psiquiátrico do Juqueri. Ninguém tinha interesse em consumir aquilo e eles ficaram por ali.

Havia uma junkie, no sentido mais profundo da palavra, chamada Maga, que frequentava habitualmente o apartamento, com uma amiga que já não lembro o nome. Um dia ela descobre os malditos comprimidos. Vai ao banheiro e dissolve um deles com a água da pia, em seguida, com uma seringa, aplica na amiga. Depois, sem exagero ou figura de linguagem, dissolve 12 comprimidos e se aplica. Fui para o quarto com ela e o Rogério com a amiga. O restante da cambada ficou na sala.

Depois de algum tempo o Rogério percebe que a menina está passando mal. Foi aquele desespero. Meio desmaiada, pálida e vomitando. Puta overdose. A Maga, com os 12 comprimidos nas veias, tomou conta da situação e, com nossa ajuda, conseguiu fazer com que a garota se recuperasse e, o mais inacreditável, levou a amiga, ainda meio cambaleante, para casa. Por pouco as consequências não foram trágicas. Alguém deu fim naquela porra.

Drogas, ali, eram tão fartas quanto baião-de-dois ou macaxeira com carne seca. Maconha, cogumelo de zebu ou mesmo LSD, que um inglês, morador do sexto andar do mesmo prédio, tinha em estoque. Nunca chegamos conhecer o tal inglês, apenas seu companheiro, Marquinhos, um surfista carioca. Gente boa pra caralho.

Nosso apartamento ficava no quarto andar, com vista para a Avenida Boa Vista, uma das principais de Recife. Durante horas ficávamos na janela observando a movimentação maluca daquele lugar. Era cego, com barraquinha e tudo mais, vendendo maconha em plena luz do dia. Era policial roubando a maconha do cego e sair correndo. Tudo muito absurdo para nós então.


Foi ali, em uma livraria, próxima ao prédio onde morávamos, que comprei o livro América, do Franz Kafka. Poderia ser Uma Temporada no Inferno, do Rimbaud, mas acho que nada fazia sentido.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ATUALIZAÇÕES

Excetuando-se alguns eventos, datas comemorativas e velórios, os supermercados é que promovem, como mercadorias com prazo de validade a vencer, nossa mais autêntica atualização com o passado.

Em um corredor, cercado de um lado por pacotes de café e caixas de coadores de papel, de outro por biscoitos e chocolates, após longo tempo, nos encontramos.

Por segundos, sem reação, nos olhamos. Finalmente um beijo e um abraço carinhoso.

Nesses segundos, mais rápido que a percepção de que ela envelhecera, foi poder estar em seu olhar e ver que eu, até então, ainda era o passado em sua memória. É mais ou menos como atualizar seu Windows para a versão 10 e perceber que a 7 era melhor.

Depois do abraço apenas um “tudo bem com você?” e “comigo tudo bem!”.


Não sei o quanto podemos acreditar um no outro. De minha parte é muito rejuvenescedor poder ainda usufruir dessa percepção.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

PÓS PARTO

Reunido nesse pós-natal com minha irmã, sobrinhos e sobrinhos-netos (não sei se existe tal grau de parentesco) e ouço palmas no portão. Vem minha sobrinha-neta avisar que tem gente chamando.
Vou até lá. Duas meninas muito bonitas, vestidas no último modelito evangélico.
- Boa tarde. Posso ler um trecho da bíblia para o senhor?
- Sou ateu, respondi com toda cortesia.
- O senhor é ateu? desde quando? foi algum trauma?
- Sou ateu desde quando comecei a me entender como gente.
- Mas o senhor é muito simpático. Veio nos atender com simpatia.
- Procuro ser educado.
- Eu respeito o senhor por ser ateu, mas posso ler um trechinho da bíblia?
- Ok, se for curto, tudo bem.
Ela abre o santo livro em uma página qualquer e anuncia, antes de começar a ler.
- É Coríntios...
- Puxa, que sorte, além de ateu, também sou corintiano, falei com meu melhor humor.
- O senhor é muito simpático, respondeu com um sorriso que já queria virar risada.
Leu o tal trechinho, do qual não me lembro mais nada. A outra, mais séria, a puxou pra ir embora.
Algumas vezes penso que sou um santo homem.

SOBRE O JOÃO

O João era um caso único em nossa turma. De um lado um humor fantástico, divertido e exuberante, de outro um mau-humor corrosivo e despeitado. A própria cizânia.

Entre o fim da década de 1960 e meados da década de 1970, tínhamos o hábito de fazer uma espécie de “teatro de rua”. Tudo de improviso. Não importava se tinha gente ou não. Geralmente era o João que lançava uma ideia, uma história e íamos atrás desenvolvendo. Isso em qualquer lugar ou qualquer hora. Éramos bons nisso. Todos tinham uma rapidez em perceber e desdobrar o que era proposto.

Uma noite, a Praça Santo Antonio, no centro de Caieiras, estava lotada. Mulheres e homens elegantemente vestidos para ir ao baile de réveillon. E nós ali, ripongos, observando a cena.

O João caminha lentamente para o centro da praça, em meio à multidão, se joga ao chão, estrebuchando como se fosse uma convulsão. O Emi, irmão dele, já percebendo a coisa começou a gritar, como que desesperado:

- João, o que está acontecendo? Socorro, ajudem meu irmão! Fomos todos juntos, ali tentando segurá-lo. Gritávamos, como que sem ação, pedindo ajuda.

Formou-se uma imensa roda de curiosos pré-réveillon. E nós ali, “desesperados”. E o João ali, estrebuchando e até babando. Dona Rosa, uma senhora idosa, minha vizinha, se ajoelhou para ajudá-lo.

Repentinamente o João solta um berro, daqueles horrendos, levanta-se do chão todo torto, babando, e vai pra cima das pessoas. Era gente correndo pra todo lado. Esvaziou a praça. A dona Rosa nem sei onde foi parar.

Talvez irracionalmente, essas encenações de pânico eram feitas próximo às pessoas de boa índole da sociedade cristã caieirense. Pessoas que procuravam nos marginalizar, que nos taxavam de maconheiros, vagabundos, viados... escória. Racionalmente era uma maldade, mas como era divertido.

Por outro lado, tudo de bom que pudesse acontecer com você e fosse contar ao João, já provocava seu mau-humor. Sua autoestima era tão baixa que entendia como querer humilhá-lo. Não aceitava nada de bom para as pessoas que não tivesse a intenção de diminuí-lo. João nunca havia namorado. Nunca havia beijado uma menina. Claro, algumas pessoas da turma, de caráter mais cruel, jogavam isso na sua cara, com a intenção, aí sim, de humilhá-lo diante de todos. Hoje tenho uma compreensão um pouco melhor de toda essa situação.  

Da turma ele era o único que não dava uns tapas na pantera. Nem podia saber. Apenas desconfiava.

- Emi, se eu souber que você está fumando maconha, eu conto pro papai. Essa ameaça era constante.

Nessas questões, por prudência, o mantínhamos à distância, afinal o tal papai era um homem bronco que costumava dizer aos filhos: do jeito que te pus no mundo, eu faço você voltar.


João morreu afogado em um acampamento que fizemos em um feriado de 7 de setembro de 1975. Mas essa história fica pra depois. Eu e ele tínhamos 20 anos.

DOS MORTOS-VIVOS

Du e Di eram gêmeos. O Du era mais moreno, magro e alto. O Di era bem loiro, baixo e mais robusto. O que tinham em comum era o cabelo espetado.

Eu os conhecia desde a mais tenra infância, pois eram nossos vizinhos. Nunca desenvolvemos uma grande amizade, mas nos dávamos bem. Estudamos e jogamos bola juntos, trocávamos gibi e brincadeiras coletivas de moleque.

O Du sempre encontrei por aí. Ele trabalhava no centro de Caieiras e sempre nos trombando, nos cumprimentando e breves conversas de como você vai e comigo tudo bem. O Di nunca mais vi. Muitos anos sem vê-lo e não havia me apercebido disso.

Um dia acabei lembrando-me da ausência do Di. Falei com uma pessoa muito conhecida da família dele, que me informou que ele havia morrido há alguns anos. Fiquei chateado, pois justificava sua ausência, mas não minha desatenção.

Tempos atrás, andando na Rua João Dártora, escuto alguém me chamar do outro lado da rua, em um ponto de ônibus cheio de gente. Demoro um pouco pra identificar a pessoa no meio da pequena “multidão”. Para minha surpresa vejo o Di. Surpresa por achar vivo quem eu já achava morto.

Assim sem entender muito a situação, pois é difícil desacomodar nossos mortos que ressurgem, atravessei a rua para cumprimentá-lo. Apertamos nossas mãos, depois um abraço. Sim, ele estava vivo.

Repentinamente o Di se ajoelha diante de mim, pega minhas mãos e começa a beijá-las. Com a voz embargada de um quase choro, ficava repetindo:

- Obrigado, Rubinho. Obrigado. Você veio falar comigo. Ninguém fala comigo. Todo mundo foge de mim.

Meu mundo caiu naquele instante. Mais desamparado que ver um ex-morto. As pessoas ali presentes não menos espantadas que eu pela cena. Parece que o mundo silencia nesses momentos. Totalmente constrangido, me lembro de que tentava levantá-lo, só conseguindo dizer:

- Cara, para com isso! Por favor, para com isso!

Acho que trocamos mais algumas palavras e um último abraço antes que seu ônibus chegasse.

Esse é um mal-estar que carrego até hoje comigo. Sem nunca ter sabido o que ocorreu durante o tempo em que esteve “morto”, fico me perguntando o quanto o mataram nesse tempo. O quanto ele se matou.


Depois disso nunca mais vi o Di. Talvez seu destino seja permanecer morto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

REFLEXÕES INTEMPESTIVAS Nº 04

Saber-me existir em você 
é mais belo mistério 
que vivo e não desvendo.

CONSIDERAÇÕES MISERÁVEIS 25

Entre a lei de deus e a lei dos homens, nos coube o papel de vítimas coadjuvantes. 

DOS TEMORES

Chego do serviço, minha mãe próxima aos 90 anos de idade, conta que dois rapazes, que ela acreditava gente do governo, vieram entrevistá-la, pois era a funcionária mais antiga do hospital psiquiátrico do Juqueri que haviam encontrado ainda viva.

Não sei se eram do governo, se eram estudantes ou jornalistas. Não sei.

Minha mãe me fala, bem baixinho, com um sorriso malandro nos lábios:

- Só contei as coisas boas. Não falei nada das coisas ruins, pois eu não sei quem é essa gente e o que eles podem aprontar.

Com seus quase 90 anos e ainda temerosa de consequências ruins por parte do governo. Resultado das perseguições políticas sofridas, por ela e meu pai, enquanto funcionários do estado. Pré e pós-ditadura.

Fico pensando no poema Kaddish, do Allen Ginsberg. Sua mãe, comunista, transtornada, morrendo e achando que Hitler iria matá-la.


Fico pensando sobre aquilo que fazem com a gente.