segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

PÓS PARTO

Reunido nesse pós-natal com minha irmã, sobrinhos e sobrinhos-netos (não sei se existe tal grau de parentesco) e ouço palmas no portão. Vem minha sobrinha-neta avisar que tem gente chamando.
Vou até lá. Duas meninas muito bonitas, vestidas no último modelito evangélico.
- Boa tarde. Posso ler um trecho da bíblia para o senhor?
- Sou ateu, respondi com toda cortesia.
- O senhor é ateu? desde quando? foi algum trauma?
- Sou ateu desde quando comecei a me entender como gente.
- Mas o senhor é muito simpático. Veio nos atender com simpatia.
- Procuro ser educado.
- Eu respeito o senhor por ser ateu, mas posso ler um trechinho da bíblia?
- Ok, se for curto, tudo bem.
Ela abre o santo livro em uma página qualquer e anuncia, antes de começar a ler.
- É Coríntios...
- Puxa, que sorte, além de ateu, também sou corintiano, falei com meu melhor humor.
- O senhor é muito simpático, respondeu com um sorriso que já queria virar risada.
Leu o tal trechinho, do qual não me lembro mais nada. A outra, mais séria, a puxou pra ir embora.
Algumas vezes penso que sou um santo homem.

SOBRE O JOÃO

O João era um caso único em nossa turma. De um lado um humor fantástico, divertido e exuberante, de outro um mau-humor corrosivo e despeitado. A própria cizânia.

Entre o fim da década de 1960 e meados da década de 1970, tínhamos o hábito de fazer uma espécie de “teatro de rua”. Tudo de improviso. Não importava se tinha gente ou não. Geralmente era o João que lançava uma ideia, uma história e íamos atrás desenvolvendo. Isso em qualquer lugar ou qualquer hora. Éramos bons nisso. Todos tinham uma rapidez em perceber e desdobrar o que era proposto.

Uma noite, a Praça Santo Antonio, no centro de Caieiras, estava lotada. Mulheres e homens elegantemente vestidos para ir ao baile de réveillon. E nós ali, ripongos, observando a cena.

O João caminha lentamente para o centro da praça, em meio à multidão, se joga ao chão, estrebuchando como se fosse uma convulsão. O Emi, irmão dele, já percebendo a coisa começou a gritar, como que desesperado:

- João, o que está acontecendo? Socorro, ajudem meu irmão! Fomos todos juntos, ali tentando segurá-lo. Gritávamos, como que sem ação, pedindo ajuda.

Formou-se uma imensa roda de curiosos pré-réveillon. E nós ali, “desesperados”. E o João ali, estrebuchando e até babando. Dona Rosa, uma senhora idosa, minha vizinha, se ajoelhou para ajudá-lo.

Repentinamente o João solta um berro, daqueles horrendos, levanta-se do chão todo torto, babando, e vai pra cima das pessoas. Era gente correndo pra todo lado. Esvaziou a praça. A dona Rosa nem sei onde foi parar.

Talvez irracionalmente, essas encenações de pânico eram feitas próximo às pessoas de boa índole da sociedade cristã caieirense. Pessoas que procuravam nos marginalizar, que nos taxavam de maconheiros, vagabundos, viados... escória. Racionalmente era uma maldade, mas como era divertido.

Por outro lado, tudo de bom que pudesse acontecer com você e fosse contar ao João, já provocava seu mau-humor. Sua autoestima era tão baixa que entendia como querer humilhá-lo. Não aceitava nada de bom para as pessoas que não tivesse a intenção de diminuí-lo. João nunca havia namorado. Nunca havia beijado uma menina. Claro, algumas pessoas da turma, de caráter mais cruel, jogavam isso na sua cara, com a intenção, aí sim, de humilhá-lo diante de todos. Hoje tenho uma compreensão um pouco melhor de toda essa situação.  

Da turma ele era o único que não dava uns tapas na pantera. Nem podia saber. Apenas desconfiava.

- Emi, se eu souber que você está fumando maconha, eu conto pro papai. Essa ameaça era constante.

Nessas questões, por prudência, o mantínhamos à distância, afinal o tal papai era um homem bronco que costumava dizer aos filhos: do jeito que te pus no mundo, eu faço você voltar.


João morreu afogado em um acampamento que fizemos em um feriado de 7 de setembro de 1975. Mas essa história fica pra depois. Eu e ele tínhamos 20 anos.

DOS MORTOS-VIVOS

Du e Di eram gêmeos. O Du era mais moreno, magro e alto. O Di era bem loiro, baixo e mais robusto. O que tinham em comum era o cabelo espetado.

Eu os conhecia desde a mais tenra infância, pois eram nossos vizinhos. Nunca desenvolvemos uma grande amizade, mas nos dávamos bem. Estudamos e jogamos bola juntos, trocávamos gibi e brincadeiras coletivas de moleque.

O Du sempre encontrei por aí. Ele trabalhava no centro de Caieiras e sempre nos trombando, nos cumprimentando e breves conversas de como você vai e comigo tudo bem. O Di nunca mais vi. Muitos anos sem vê-lo e não havia me apercebido disso.

Um dia acabei lembrando-me da ausência do Di. Falei com uma pessoa muito conhecida da família dele, que me informou que ele havia morrido há alguns anos. Fiquei chateado, pois justificava sua ausência, mas não minha desatenção.

Tempos atrás, andando na Rua João Dártora, escuto alguém me chamar do outro lado da rua, em um ponto de ônibus cheio de gente. Demoro um pouco pra identificar a pessoa no meio da pequena “multidão”. Para minha surpresa vejo o Di. Surpresa por achar vivo quem eu já achava morto.

Assim sem entender muito a situação, pois é difícil desacomodar nossos mortos que ressurgem, atravessei a rua para cumprimentá-lo. Apertamos nossas mãos, depois um abraço. Sim, ele estava vivo.

Repentinamente o Di se ajoelha diante de mim, pega minhas mãos e começa a beijá-las. Com a voz embargada de um quase choro, ficava repetindo:

- Obrigado, Rubinho. Obrigado. Você veio falar comigo. Ninguém fala comigo. Todo mundo foge de mim.

Meu mundo caiu naquele instante. Mais desamparado que ver um ex-morto. As pessoas ali presentes não menos espantadas que eu pela cena. Parece que o mundo silencia nesses momentos. Totalmente constrangido, me lembro de que tentava levantá-lo, só conseguindo dizer:

- Cara, para com isso! Por favor, para com isso!

Acho que trocamos mais algumas palavras e um último abraço antes que seu ônibus chegasse.

Esse é um mal-estar que carrego até hoje comigo. Sem nunca ter sabido o que ocorreu durante o tempo em que esteve “morto”, fico me perguntando o quanto o mataram nesse tempo. O quanto ele se matou.


Depois disso nunca mais vi o Di. Talvez seu destino seja permanecer morto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

REFLEXÕES INTEMPESTIVAS Nº 04

Saber-me existir em você 
é mais belo mistério 
que vivo e não desvendo.

CONSIDERAÇÕES MISERÁVEIS 25

Entre a lei de deus e a lei dos homens, nos coube o papel de vítimas coadjuvantes. 

DOS TEMORES

Chego do serviço, minha mãe próxima aos 90 anos de idade, conta que dois rapazes, que ela acreditava gente do governo, vieram entrevistá-la, pois era a funcionária mais antiga do hospital psiquiátrico do Juqueri que haviam encontrado ainda viva.

Não sei se eram do governo, se eram estudantes ou jornalistas. Não sei.

Minha mãe me fala, bem baixinho, com um sorriso malandro nos lábios:

- Só contei as coisas boas. Não falei nada das coisas ruins, pois eu não sei quem é essa gente e o que eles podem aprontar.

Com seus quase 90 anos e ainda temerosa de consequências ruins por parte do governo. Resultado das perseguições políticas sofridas, por ela e meu pai, enquanto funcionários do estado. Pré e pós-ditadura.

Fico pensando no poema Kaddish, do Allen Ginsberg. Sua mãe, comunista, transtornada, morrendo e achando que Hitler iria matá-la.


Fico pensando sobre aquilo que fazem com a gente.

DAS FACILIDADES

Minha mãe era uma mulher que não aceitava facilidades. Criada em sítio, ainda menina teve que trabalhar como doméstica. Aos quinze anos começou a trabalhar no hospital psiquiátrico do Juqueri, onde se aposentou. Ali dentro nunca nos preservou do contato com os internos, sempre tratados com dignidade. Éramos iguais.

Histórias do Juqueri são tantas. Cidinha, menina negra, que se dizia amante do Bandido da Luz Vermelha. Menina doce que nos tratava com muito carinho e vivia grudada em minha mãe. Menina que não podia ter qualquer objeto cortante ao seu alcance. Mutilava-se, sangrando, cicatrizes sobre cicatrizes outras que desconhecíamos. Cabelos curtos, muito limpos, roupa de interna, carimbada, e um sorriso que não ouso tentar repetir aqui.

Histórias do outro lado do muro. Minha mãe arrombando a porta do um banheiro, onde um médico psiquiatra estava morrendo sufocado pelas próprias fezes. Ela tendo que enfiar o dedo na garganta para salvá-lo de um prazer, que naquele momento o matava. Salvou.

Interna enorme, forte, após momento de muita agressividade, onde quase matou outra interna, implorava à minha mãe: “fia, não deixa eles me dá eletrochoque. Vou Morrer!”. E morreu.

Não, ela não aceitava facilidades. Fez meu pai devolver pra loja uma enceradeira que havia comprado, pois não abria mão do seu escovão. Com o escovão ela passava palha de aço para tirar o restante da encerada anterior. Ajoelhada, com um pano nas mãos, passava a cera. Seca a cera, com o escovão, dava o lustro. Enceradeira, jamais!

Assim, nunca aceitou a batedeira de bolo, que ficou para sempre encostada num canto do armário. Ela fazia e batia sua massa de bolo. Da mesma forma com o pão, com a massa de pizza e etc. A única facilidade que aceitou foi o liquidificador. Em verdade pouco usado. Máquina de lavar roupas, nem pensar!

Acredito que, por herança, também não sou de aceitar facilidades. Também tenho o agravante de não facilitar muito.

Quando casado, a Marli resolveu comprar uma máquina de lavar louças. Lavar a louça era uma das minhas tarefas na divisão de trabalho de casa. Com pouco tempo de uso fui me incomodando com a máquina pelo trabalho que dava, além do serviço porco. Não pensei duas vezes: peguei a incompetente serviçal mecânica e coloquei no lixo. Sem mais.

A máquina de lavar roupas raramente usava. Sempre preferi lavar minhas peças ali no tanque. Resultados outros.

As pessoas, habituadas aos confortos do mundo moderno, me questionam com certa insistência a razão pela qual não compro um carro, uma máquina de lavar e não sei mais lá quantas coisas. Pra não haver tanta teimosia, respondo que, ou não quero ou não posso. Ou ainda que não posso e não quero. Simples.

Lavar louças, lavar e passar roupas, andar de ônibus, trem ou metrô, é onde me abstraio. É onde posso ser humano. É onde extraio o melhor que posso me dar e poder oferecer-me. Eis, nesses momentos, onde me sei no mundo e em mim ele pletora.


Sei muito bem o cansaço e dor física que essas atividades proporcionam. O mesmo cansaço e dores da minha mãe, já idosa e quase incapaz, insistindo em executá-las. E querem tirar isso da gente. Querem nos tirar a única dor que nos escuda no enfrentamento com as dores do mundo. Querem nos dar a comodidade alienante de um corpo no sofá.

Quem viveu e viu há de me entender.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

DA FILOSOFIA DIRETA

No texto “Espionagem” falei sobre um tal chefinho medíocre durante o tempo em que trabalhei na prefeitura de Caieiras. Em razão dessa história que contei, e outras que ainda poderei contar, cortei qualquer proximidade, da pouca que já havia, com o sujeito.

Ele católico, “kantiniano”. Eu, ateu, “nietzscheniano”.

Tivemos alguns arranca-rabos pretensiosamente filosóficos.

Um dia, não sei por qual razão, emprestei a ele um livro. Fico em dúvida se foi A República, do Platão ou Emílio ou da Educação, do Rousseau.

Muito tempo depois, já rompidos e eu fora da prefeitura, ele foi me devolver o livro. Bateu palmas no portão de casa. Eu não estava e minha filha, Maíra, com seus 6 ou 7 anos, atendeu.

- O que você quer? Meu pai não gosta de você!


Ah, como amo esses meus filhos! 

DA MÁ EDUCAÇÃO

A Maíra estava com 5 ou 6 anos. O Raoni entre 3 e 4. O governo do estado havia criado um projeto pré-escolar, que se pretendia moderno. A escolinha era bem próxima da nossa casa, e a Marli, então professora estadual, resolveu matriculá-los. A diretora, razoavelmente conhecida da Marli, era toda simpatia.

Começamos a estranhar a relutância do Raoni em querer ir pra tal escolinha moderna. Chorava muito, esperneava em uma resistência fora dos padrões do seu comportamento habitual.

Um dia, a toda simpática diretora veio nos contar, entre espantada e incrédula, o entrevero que teve com meu filho, que não parava de chorar. Claro, ela foi dar-lhe uma bronca, que depois soubemos ser sua forma de lidar com crianças. Segundo ela, o Rá parou de chorar na hora, enfiou o dedo na sua cara e disse:

- Eu não gosto que gritem comigo!

Ainda hoje fico imaginando a cara da mulher ao ser confrontada dessa maneira por uma criança de 3 ou 4 anos.


Dona Idalina, acho que era esse seu nome, era a merendeira da escolinha. Foi ela quem nos contou como era o tratamento grosseiro dado pela diretora simpática às crianças. Tiramos nossos filhos da escola e, nesse curto período que ficaram, desenvolveram uma grande afeição pela dona Idalina, única a tratar os pequenos com humanidade, que mantiveram até a idade adulta. Anos depois, quantas vezes a encontrávamos na rua e ela vinha abraçá-los e beijá-los. Eram ainda as suas crianças.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ESPIONAGEM

Começo dos anos de 1980, trabalhando na prefeitura de Caieiras, entrou um rapaz bem mais novo que eu pra trabalhar em nosso departamento. Ivo foi, e ainda é, uma das pessoas mais honestas que conheci. De uma simplicidade tão autêntica que ainda me emociono das suas e nossas diversas histórias.

O chefe do departamento era um sujeito medíocre que, embora não fosse um grande amigo, tinha certa aproximação comigo desde a infância. Logo após esse fato que vou relatar perdemos essa aproximação.

Havia uma questão que preocupava o chefinho: o Ivo era filho de um vereador. Em sua tresloucada mesquinharia achou que o pai havia “plantado” o filho ali no departamento para tomar o seu tão precioso cargo. Cargo mantido pela relação de servidão bovina a qualquer superior.

Sentindo-se ameaçado começou a articular junto aos seus pares uma forma de prejudicar o garoto.

Como tínhamos amigos em todos os departamentos da prefeitura e por sua pouca habilidade como articulador, ficamos sabendo de suas maquinações.

Conversei com o Ivo e expliquei que tinha um plano pra acabar com aquilo. Combinamos que no dia seguinte, a um sinal meu, ele me deixaria a sós com o famigerado chefinho, pois eu o queria totalmente desarmado.

No outro dia levei um gravador, aquele tipo tijolão, e coloquei na gaveta da minha mesa. Assim que o “cargo ameaçado” chegou dei um toque para o Ivo sair.

Coloquei o bicho pra a gravar e no meio de um papo descontraído com o chefinho comecei a insinuar, bem de leve, maledicências contra o prefeito e vereadores. Não deu outra: o sujeito desandou a meter o pau no mandatário, a ofender vereadores, outros chefes e diretores. Era a indignação contra o poder público em pessoa.

Tendo conseguido o que queria, chamei o Ivo, tirei o gravador da gaveta e coloquei pra rodar a gravação. O cara, covarde como era, ficou pálido, gaguejando e tremendo. Nem ódio conseguiu sentir naquele momento.

Disse a ele que sabia das suas manipulações pra tentar prejudicar o Ivo, e que se ele fosse prejudicado de alguma maneira aquela fita iria parar nas mãos do prefeito. Nunca mais se meteu a besta.


Eu e o Ivo trabalhamos ainda um bom tempo juntos. Acabou saindo da prefeitura um pouco antes da minha saída. Sei que está bem, mas eu o vejo raramente.

MEGA REVOLUCIONÁRIOS EM BITS OU BYTES

Dentro do senso comum o "revolucionário" é aquele que faz. Aquele que é o exemplo. Aos demais cabe incitar e esperar que ele faça.

HISTÓRIAS DE QUANDO O BOI DORME

Observando hoje toda a movimentação desse governo golpista, com sua submissão à voracidade excludente do capital, lembro-me de quando era funcionário concursado da prefeitura municipal de Caieiras, onde a igreja e grandes empresas sempre determinaram os passos de governantes ignorantes, capachos e corruptos.

Em meados e fins da década de 1980 o prefeito encaminha um projeto à câmara municipal, disfarçado como um novo organograma, com o objetivo claro de cercear as ações de funcionários estáveis (concursados), dificultando a ascensão em termo de carreira e alguma coisa referente a salários, que já não me recordo mais. No bojo desse projeto havia também uma série itens que prejudicava em muito aos funcionários contratados pelo regime da CLT.

Com uma câmara municipal composta de vereadores venais, era óbvia a aprovação de tal projeto. O “menos pior” desses vereadores, como diria meu pai, não sabia fazer o ó com o cu.

Fui articulando, juntamente com alguns conhecidos, alguma forma de organização que pudesse fazer um enfrentamento e coibir a aprovação de tal “organograma”.

Nesse ínterim, um funcionário que cuidava da limpeza externa da prefeitura desmaia de fome, ali diante de todos nós. Após ser atendido, como medida emergencial, corremos uma lista para fazer uma compra de alimentos para suprir a necessidade do funcionário, já um senhor de certa idade. Pedreiros, carpinteiros, ajudantes, motoristas, nós do almoxarifado, merendeiras e porteiros assinaram a lista. Quando fomos levá-la para o interior da prefeitura, onde funciona toda parte burocrática, fomos impedidos pela secretária do prefeito, alegando que o mesmo não havia permitido. Acredito que ele teria impedido, mas pelo histórico credito muito mais a um hipócrita rato de igreja que atendia pelo cargo de chefe de gabinete.

O burburinho do indigesto “organograma” estava tomando corpo.

Dois dias depois do desmaio do funcionário, aparece a secretária do prefeito com uma lista para arrecadar dinheiro para comprar um presente para o aniversariante alcaide. Na lista constavam os nomes de todos os funcionários, seguido de um espaço onde seria colocado o valor da “espontânea” contribuição. Eu me recusei a assinar. Muitos o fizeram. Alguns, mais irônicos, deram a moeda de menor valor à época.

Com a coisa fervilhando começamos a articular a criação de uma associação de funcionários.

Como todas as sacanagens politiqueiras do Brasil, tentaram a aprovação desse projeto em uma sessão da câmara, onde aparentemente não estava em pauta.

Através de informações de simpatizantes ficamos sabendo da manobra. Tivemos tempo de nos articular e acredito ter sido uma das poucas vezes em que aquela casa, chamada do povo, esteve lotada. Todas as cadeiras lotadas, corredores laterais lotados. Puxa-saco anotando nomes, vereadores assustados.

Pressionados pelos funcionários, os vereadores tiveram que fazer uma concessão, permitindo que eu falasse, como porta-voz do movimento, durante a sessão. Até onde sei, medida ilegal pelas normas da casa.

Possesso, falei sobre funcionários desmaiando de fome, sobre o escarnecimento que representava a lista de presente do prefeito. Falei sobre os objetivos de caráter perverso do tal projeto. Falei sobre perseguições a funcionários. Falei o que devia. Também falei o que, no entender deles, não devia. E finalizei com um sonoro “nós fechamos essa merda” caso o “organograma” fosse aprovado. Vereadores cabisbaixos e mudos. Não fizeram a votação do cujo dito. Sentimo-nos o máximo. Já era uma vitória.

Ao término da sessão, já do lado de fora da câmara, conversando ali com os funcionários, o puxa-saco que anotava os nomes dos presentes, aliás, um fiscal de feiras livres, vem todo dengoso conversar comigo. Meto-lhe o dedo na cara e grito pra ele sumir da minha frente, antes que o arrebente na porrada. Clima tenso. Gente me segurando.

Nesse clima, um dos vereadores da base do prefeito, coloca a mão em meu ombro, querendo conversar comigo. Viro e desfiro um safanão que pega no braço dele.

- Tira as mãos de mim, filho da puta. Você é meu inimigo! Tira as mãos de mim! Vou pra cima dele até que acabam me segurando novamente.

Em seguida ele vai até a delegacia prestar queixa por agressão. Queixa posteriormente retirada por influência de outro vereador amigo de meu pai. Soube dessa história tempos depois.

Conclusão: a prefeitura foi demitindo todos os funcionários mais ativos envolvidos no movimento de articulação da associação. Pressionou e ameaçou os demais. Formaram uma chapa com funcionários bajuladores. Chapa única. Desarticulados bebemos do nosso próprio veneno. Eu como era concursado e não havia um motivo para processo administrativo, fui encostado, como castigo, no arquivo-morto da prefeitura.

Aprovaram, claro, na calada da noite, o fatídico “organograma”. Sem oposição.

Diante das tantas demissões solicitei uma licença sem remuneração, seguida de minha exoneração.

DAS DISPONIBILIDADES

Só fujo para lugares que me amedrontam.

CONSIDERAÇÕES MISERÁVEIS 24

Alguns momentos penso em escrever um texto contundente e indignado sobre esse brasil (sim, minúsculo) dos desmandos legislativos, executivos e judiciários.

Penso em um libelo profundo em oposição à superficialidade da nossa classe média e o grotesco apetite da burguesia insaciável.

Penso em um ato que seja o antídoto final contra a violência bestial da polícia militar. Um antídoto que se estenda às violências contra crianças, negros, pobres, mulheres, homossexuais ou indígenas.

Penso em um manifesto que extirpe as desigualdades, a exploração, os preconceitos e discriminações.

Penso em teorizar sobre todo mal provocado pelas crenças religiosas. Teorizar sobre o fim dessa praga “divina” a solapar o entendimento, o dinheiro e a consciência dos seres humanos.

Penso em colocar a primeira e última pedra sobre o túmulo do capitalismo.

Penso em cada nova personagem maléfica que terei que trocar quase que diariamente na malhação conformista do Judas.

Penso nas soluções definitivas para todos os fatos diários, de incompreensível emaranhado, que marginalizam uma nação. Penso no fim do estado.

Penso em todos que pensam. Em todos que pensam que pensam. Naqueles que não pensam. Em outros que penso que não pensam.

Penso no que pensam sobre o que penso ou não penso, ou mesmo se penso.

Suspenso, penso.  

Penso. Penso. Penso. Penso. Penso. Penso... 

PROTOCOLOS EXISTENCIAIS Nº 25

Todo pensamento suicida é um enfrentar a vida. Toda vontade de viver é um ceder à morte.