terça-feira, 13 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS DE QUANDO O BOI DORME

Observando hoje toda a movimentação desse governo golpista, com sua submissão à voracidade excludente do capital, lembro-me de quando era funcionário concursado da prefeitura municipal de Caieiras, onde a igreja e grandes empresas sempre determinaram os passos de governantes ignorantes, capachos e corruptos.

Em meados e fins da década de 1980 o prefeito encaminha um projeto à câmara municipal, disfarçado como um novo organograma, com o objetivo claro de cercear as ações de funcionários estáveis (concursados), dificultando a ascensão em termo de carreira e alguma coisa referente a salários, que já não me recordo mais. No bojo desse projeto havia também uma série itens que prejudicava em muito aos funcionários contratados pelo regime da CLT.

Com uma câmara municipal composta de vereadores venais, era óbvia a aprovação de tal projeto. O “menos pior” desses vereadores, como diria meu pai, não sabia fazer o ó com o cu.

Fui articulando, juntamente com alguns conhecidos, alguma forma de organização que pudesse fazer um enfrentamento e coibir a aprovação de tal “organograma”.

Nesse ínterim, um funcionário que cuidava da limpeza externa da prefeitura desmaia de fome, ali diante de todos nós. Após ser atendido, como medida emergencial, corremos uma lista para fazer uma compra de alimentos para suprir a necessidade do funcionário, já um senhor de certa idade. Pedreiros, carpinteiros, ajudantes, motoristas, nós do almoxarifado, merendeiras e porteiros assinaram a lista. Quando fomos levá-la para o interior da prefeitura, onde funciona toda parte burocrática, fomos impedidos pela secretária do prefeito, alegando que o mesmo não havia permitido. Acredito que ele teria impedido, mas pelo histórico credito muito mais a um hipócrita rato de igreja que atendia pelo cargo de chefe de gabinete.

O burburinho do indigesto “organograma” estava tomando corpo.

Dois dias depois do desmaio do funcionário, aparece a secretária do prefeito com uma lista para arrecadar dinheiro para comprar um presente para o aniversariante alcaide. Na lista constavam os nomes de todos os funcionários, seguido de um espaço onde seria colocado o valor da “espontânea” contribuição. Eu me recusei a assinar. Muitos o fizeram. Alguns, mais irônicos, deram a moeda de menor valor à época.

Com a coisa fervilhando começamos a articular a criação de uma associação de funcionários.

Como todas as sacanagens politiqueiras do Brasil, tentaram a aprovação desse projeto em uma sessão da câmara, onde aparentemente não estava em pauta.

Através de informações de simpatizantes ficamos sabendo da manobra. Tivemos tempo de nos articular e acredito ter sido uma das poucas vezes em que aquela casa, chamada do povo, esteve lotada. Todas as cadeiras lotadas, corredores laterais lotados. Puxa-saco anotando nomes, vereadores assustados.

Pressionados pelos funcionários, os vereadores tiveram que fazer uma concessão, permitindo que eu falasse, como porta-voz do movimento, durante a sessão. Até onde sei, medida ilegal pelas normas da casa.

Possesso, falei sobre funcionários desmaiando de fome, sobre o escarnecimento que representava a lista de presente do prefeito. Falei sobre os objetivos de caráter perverso do tal projeto. Falei sobre perseguições a funcionários. Falei o que devia. Também falei o que, no entender deles, não devia. E finalizei com um sonoro “nós fechamos essa merda” caso o “organograma” fosse aprovado. Vereadores cabisbaixos e mudos. Não fizeram a votação do cujo dito. Sentimo-nos o máximo. Já era uma vitória.

Ao término da sessão, já do lado de fora da câmara, conversando ali com os funcionários, o puxa-saco que anotava os nomes dos presentes, aliás, um fiscal de feiras livres, vem todo dengoso conversar comigo. Meto-lhe o dedo na cara e grito pra ele sumir da minha frente, antes que o arrebente na porrada. Clima tenso. Gente me segurando.

Nesse clima, um dos vereadores da base do prefeito, coloca a mão em meu ombro, querendo conversar comigo. Viro e desfiro um safanão que pega no braço dele.

- Tira as mãos de mim, filho da puta. Você é meu inimigo! Tira as mãos de mim! Vou pra cima dele até que acabam me segurando novamente.

Em seguida ele vai até a delegacia prestar queixa por agressão. Queixa posteriormente retirada por influência de outro vereador amigo de meu pai. Soube dessa história tempos depois.

Conclusão: a prefeitura foi demitindo todos os funcionários mais ativos envolvidos no movimento de articulação da associação. Pressionou e ameaçou os demais. Formaram uma chapa com funcionários bajuladores. Chapa única. Desarticulados bebemos do nosso próprio veneno. Eu como era concursado e não havia um motivo para processo administrativo, fui encostado, como castigo, no arquivo-morto da prefeitura.

Aprovaram, claro, na calada da noite, o fatídico “organograma”. Sem oposição.

Diante das tantas demissões solicitei uma licença sem remuneração, seguida de minha exoneração.

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