Por mais citados que sejam, poetas nunca são punidos.
segunda-feira, 27 de março de 2017
DAS MATILHAS
Quanto mais próxima sua ascendência for o lobo, mais saudável é o cachorro. Exceção ao homem em pele de cordeiro.
RADICAL
No quesito alimentação ando tão natural que, se der um passo à frente, vou virar vegano... se der um passo atrás, me transformo em evangélico, o que vem dar no mesmo!
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
PROTOCOLOS EXISTENCIAIS Nº 28
SANTÍSSIMA TRINDADE NO SISTEMA BINÁRIO
Quando o primeiro, insistentemente, justifica pra você os atos do segundo, você não é o terceiro: você está fora do jogo!
Quando o primeiro, insistentemente, justifica pra você os atos do segundo, você não é o terceiro: você está fora do jogo!
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
ME DÁ UM TECO?!
Alguém já disse que a filosofia e a literatura são as piores
coisas para a poesia. Para alguém que, como eu, acredita que poesia não é
literatura, muito menos filosofia, concorda plenamente com isso, embora nem
todos tenham essa concepção. No entanto, penso aqui: o que é pior para a
literatura, para a filosofia e para a poesia?
Questionando-me sobre os três casos, acabo incluindo mais um
item. A História. Todo aquele que tem um interesse mais sério em História, acaba
entrando em confronto com o ensino oficial da mesma. Não apenas por apresentar
a versão dos protagonistas vencedores, mas, principalmente, por nos impingir
fatos isolados. Nada pior para a História e seu entendimento que o
retalhamento em pequenos pedaços, como se não houvesse qualquer conexão entre
eles.
A História, sempre a História, vai me dando certa luz sobre
a eterna sombra que se abate sobre a Poesia, a Literatura e a Filosofia. Em um
primeiro momento identifico a falta do conhecimento histórico, a falta de
leitura ou leitura superficial, seguida pelo entendimento risível, resultando,
por fim, na cultura de retalhamento das obras.
A facilidade do mundo virtual expandiu de forma quase
doentia essa superficialidade. Tornamo-nos clientes assíduos das seletas
filosóficas, dos açougues poéticos e dos armarinhos de literatura. Como
estripadores vamos desconectando órgãos, ossos e vísceras de um conjunto,
denominado corpo. Tornamos inútil cada pedaço, cada parte sem sua função no
todo. Matamos o todo.
A vaidade vai nos tornando grandes citadores de nomes, que
mal conhecemos, e frases fora de seu contexto original. Somos todos a aparência
do conhecimento. Sedutores do conhecimento rasteiro. Glorificação da ignorância
mascarada. Portadores da preguiça fantasiada.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
CONSIDERAÇÕES MISERÁVEIS 27
Por mais que eu proclame minha indecência, sempre serei réu da minha inocência.
PROTOCOLOS EXISTENCIAIS Nº 26
Chega! Basta de expor a nudez da minha indignação. Não quero
mais que as vísceras da minha felicidade sejam revolvidas em açougues públicos.
Que finde a necropsia da minha alma. Não mais exumarão o cadáver dos meus
fracassos.
Eu sou o fato. Regalem-se com os restos.
Não mais me oferecerei em holocausto para famélicos da
sordidez. Não mais norte. Não mais mote. Basta de penhor genético. Desassociar-me dos eventos. Tempo e espaço. Manter o caos recalcitrante cagando para as normas mesquinhas .
Eu sou a foto. Regalem-se com os rostos.
Chega! Basta de fartura. Basta de cultura. Basta de ruptura.
Quero apenas a rua entre nuvens e asfalto. Quero a rua sem séquitos de sexos
embotados na minha poesia. Não mais quero suas fantasias.
Eu sou o farto. Regalem-se com os ritos.
Chega! Basta de hipocrisia saudável. Não quero mais a
salutar felicidade de mãos que nunca se apertam. Retiro um a um os parasitas da
minha franqueza: franquia de exultação. Não mais assinatura em contratos
invisíveis.
Eu sou o reles. Regalem-se com os fardos.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
RECIFE 1978 - Segunda parte
Tereza morava com a família em um quase casebre enfiado no
meio do mato, na periferia da cidade de Olinda. Fui ali uma ou duas vezes. Depois que
chegamos a Recife, Tereza praticamente não saía de nosso apartamento.
Um dia ela começa a nos falar sobre uma tal de Árvore de
Jurema e ficou insistindo para nos levar até lá. Onde a memória me permite
distinguir, ficava no caminho do município de Paulista. Resolvemos ir. Eu, meu
irmão, Rogério, Nelson e Mário.
Atravessamos uma mata e chegamos a um descampado com um
córrego de águas cristalinas e seixos lindíssimos. Cruzamos o córrego. Tereza
disse que, antes da Árvore de Jurema, nos levaria para conhecer o padre Cícero.
Olhamo-nos, já estranhando a situação.
Padre Cícero era uma árvore frondosa, muito larga. Haviam
lascado uma grande parte dela e pintado a figura do líder religioso do nordeste,
com o tamanho aproximado de uma criança de 10 anos. A parte esquisita da
história ficava por conta das inumeráveis perfurações à bala na cabeça, mãos
e coração da pintura. Eram tantos tiros que essas partes do corpo haviam
desaparecido. Tereza nos garantiu que durante a noite podia-se ouvir o barulho
dos disparos, mas ninguém sabia quem era o responsável.
Seguimos adiante, até onde a mata se fechava completamente. Não
havia qualquer sinal de trilha, nada que indicasse que pessoas penetrassem
naquela muralha. Adentramos naquele emaranhado de árvores, mato, galhos e
cipós, liderados pela Tereza. Finalmente chegamos à Árvore de Jurema.
Era um descampado, em forma de círculo, com uns 20 metros de
diâmetro, no meio da mata. O entorno era mata fechada, sem qualquer sinal de que
algum humano tivesse chegado ali. Ao centro, a Árvore de Jurema. Algo parecido
com o cacaueiro. Sem um tronco aparente e os galhos brotando em diversos pontos
do círculo. O chão desse círculo, sem qualquer outra planta, estava totalmente
coberto de tocos de velas pretas e vermelhas. Não era possível ver o chão sob
aquela espécie de asfalto rubro negro. Tereza também nos garantiu que
ninguém sabia nada sobre os possíveis frequentadores daquele local, nem como
sabia da sua existência.
Por mais cético que possamos ser não há como não sentir um
frio percorrendo a espinha. Em silêncio saímos rapidamente do local.
Na volta resolvemos parar no córrego de águas límpidas e nos
agachamos para pegar alguns seixos. Por alguma razão olhamos para trás, de onde
tínhamos vindo. Ali, uns 10 metros da gente, um sujeito enorme, que lembrava
muito o cantor e compositor Dominguinhos, com uma espingarda, ou rifle,
apontando pra nossas costas. Não disse uma palavra.
Levantamo-nos muito lentamente e lentamente fomos nos
afastando. Ele imóvel, apontando a arma em nossa direção. Assim, de forma muito
lenta saímos do seu campo de visão e, claro, do alcance de um possível tiro.
Nunca comentamos, entre nós, sobre essa experiência. Acho
que todos vivenciaram algo parecido com o que eu vivenciei: a possibilidade de
uma morte onde ninguém jamais saberia que estávamos mortos.
Nunca indaguei a Tereza pra entender o que ela representava
naquilo tudo. Quem era aquele homem armado, tão próximo da gente e não
percebemos sua presença?
Estando sozinho o efeito da maconha até poderia justificar,
mas em grupo, só alucinação coletiva.
RECIFE 1978 - Primeira parte
Em 1978 decidimos ir embora pra Recife. Era um bando formado
pelo meu irmão Carlos, meus primos Nelson e Rogério, o Mário e eu. Meu primo
Sidnei já estava morando lá.
Ficamos morando no centro de Recife, em um apartamento na
esquina da Av. Boa Vista e a Rua do Hospício. Cenário que ressoava os passos
soturnos do poeta Augusto dos Anjos.
Como chegamos com aquele aspecto ripongo, armados de violões
e outros instrumentos musicais, rapidamente o apartamento transformou-se em
ponto de encontro dos malucos de Recife. Músicos, junkies, hippies, gays e
lésbicas abarrotavam o apartamento de três cômodos.
Lembro-me com muito carinho da Marta, garota lésbica, que
largou a família para morar com a gente e de Tereza que, em início de gravidez,
tornou-se minha companheira.
Não me recordo de onde foi proveniente e nem com qual intenção,
alguém levou um saco, sim, um saco de uns comprimidinhos, de cor entre azul e
violeta, que eram usados como “sossega leão” nos internos agressivos do
Hospital Psiquiátrico do Juqueri. Ninguém tinha interesse em consumir aquilo e
eles ficaram por ali.
Havia uma junkie, no sentido mais profundo da palavra, chamada
Maga, que frequentava habitualmente o apartamento, com uma amiga que já não
lembro o nome. Um dia ela descobre os malditos comprimidos. Vai ao banheiro e
dissolve um deles com a água da pia, em seguida, com uma seringa, aplica na
amiga. Depois, sem exagero ou figura de linguagem, dissolve 12 comprimidos e se
aplica. Fui para o quarto com ela e o Rogério com a amiga. O restante da
cambada ficou na sala.
Depois de algum tempo o Rogério percebe que a menina está
passando mal. Foi aquele desespero. Meio desmaiada, pálida e vomitando. Puta
overdose. A Maga, com os 12 comprimidos nas veias, tomou conta da situação e,
com nossa ajuda, conseguiu fazer com que a garota se recuperasse e, o mais
inacreditável, levou a amiga, ainda meio cambaleante, para casa. Por pouco as
consequências não foram trágicas. Alguém deu fim naquela porra.
Drogas, ali, eram tão fartas quanto baião-de-dois ou
macaxeira com carne seca. Maconha, cogumelo de zebu ou mesmo LSD, que um inglês,
morador do sexto andar do mesmo prédio, tinha em estoque. Nunca chegamos
conhecer o tal inglês, apenas seu companheiro, Marquinhos, um surfista carioca.
Gente boa pra caralho.
Nosso apartamento ficava no quarto andar, com vista para a
Avenida Boa Vista, uma das principais de Recife. Durante horas ficávamos na
janela observando a movimentação maluca daquele lugar. Era cego, com
barraquinha e tudo mais, vendendo maconha em plena luz do dia. Era policial
roubando a maconha do cego e sair correndo. Tudo muito absurdo para nós então.
Foi ali, em uma livraria, próxima ao prédio onde morávamos,
que comprei o livro América, do Franz Kafka. Poderia ser Uma Temporada no
Inferno, do Rimbaud, mas acho que nada fazia sentido.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
ATUALIZAÇÕES
Excetuando-se alguns eventos, datas comemorativas e
velórios, os supermercados é que promovem, como mercadorias com prazo de
validade a vencer, nossa mais autêntica atualização com o passado.
Em um corredor, cercado de um lado por pacotes de café e
caixas de coadores de papel, de outro por biscoitos e chocolates, após longo
tempo, nos encontramos.
Por segundos, sem reação, nos olhamos. Finalmente um beijo e
um abraço carinhoso.
Nesses segundos, mais rápido que a percepção de que ela
envelhecera, foi poder estar em seu olhar e ver que eu, até então, ainda era o passado
em sua memória. É mais ou menos como atualizar seu Windows para a versão 10 e
perceber que a 7 era melhor.
Depois do abraço apenas um “tudo bem com você?” e “comigo
tudo bem!”.
Não sei o quanto podemos acreditar um no outro. De minha
parte é muito rejuvenescedor poder ainda usufruir dessa percepção.
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